domingo, 27 de abril de 2014

Mágica de costura

Todo dia, pela manhã ela me aprontava e me mandava para a escola, depois ia para seus afazeres cotidianos. Quando eu voltava, almoço pronto, almoçar, lições de casa e... brincar. Mas várias vezes, nas tardes da minha infância, eu me lembro de ficar montando meus carrinhos e aviõezinhos ali, no pé de uma máquina de costura, tocada a pedal.

Em tempos de dinheiro escasso, ela defendia algum (e às vezes único) dinheirinho fazendo roupas. As freguesas traziam as peças de tecido, os carretéis de linha, zíper, botões e a revista de moda que viu o vestido e, pronto, era o suficiente para que ela, como uma alquimista de pano e agulha, transformasse o sonho da freguesa na mais concreta realidade.

Ela me contou uma vez que o meu nome foi escolhido como uma homenagem a um santo, que a ajudava nos momentos de cortar os tecidos, por ter sido ele um alfaiate. E assim, rezando ao santo para guiar sua tesoura pelo caminho correto do pano, ela ia cortando, costurando e finalizando as roupas das suas freguesas.

Então, um dia ela ficou sabendo de um método (Magic Corte) que ensinava como riscar e cortar roupas, e resolveu aprender. Foi ao SESI, fez inscrição e, à noite, eu ia com ela aprender como usar os gabaritos para fazer todo tipo de roupa. Eu só a acompanhava, mas acabei vendo e aprendendo um pouco como fazer os riscos que seriam a guia para o corte do tecido. E ela ia cada dia mais, melhorando e aperfeiçoando sua costura, usando a mágica dos gabaritos e dando uma força ao santo, que tinha lá seus outros afazeres.

Depois de um tempo, com um dinheirinho poupado aqui, uma costurinha a mais dali, ela empreendeu a compra de uma nova máquina de costura, que tem até hoje. Essa sim, elétrica, cheia das bobinas e funções que agregavam ainda mais valor às roupas que ela fazia. E por muito tempo, Dona Ambrozina, como sempre foi chamada pelas freguesas, foi construindo sua fama de grande costureira. E eu, cresci, mas nunca me esqueci dos dias ao pé da máquina, da correia de couro fino que às vezes escapava, da compra de linha em retrós ou carretel, de riscos com gabaritos e de idas e vindas ao SESI com ela.


Saudade boa!

2 comentários:

Esther disse...

Que lindo texto!

Fernando disse...

Texto Sensacional Ge! Tenho as mesmas lembranças da minha avó!