Todo dia, pela manhã ela me aprontava e me mandava para a
escola, depois ia para seus afazeres cotidianos. Quando eu voltava, almoço
pronto, almoçar, lições de casa e... brincar. Mas várias vezes, nas tardes da
minha infância, eu me lembro de ficar montando meus carrinhos e aviõezinhos
ali, no pé de uma máquina de costura, tocada a pedal.
Em tempos de dinheiro escasso, ela defendia algum (e às
vezes único) dinheirinho fazendo roupas. As freguesas traziam as peças de
tecido, os carretéis de linha, zíper, botões e a revista de moda que viu o
vestido e, pronto, era o suficiente para que ela, como uma alquimista de pano e
agulha, transformasse o sonho da freguesa na mais concreta realidade.
Ela me contou uma vez que o meu nome foi escolhido como uma
homenagem a um santo, que a ajudava nos momentos de cortar os tecidos, por ter
sido ele um alfaiate. E assim, rezando ao santo para guiar sua tesoura pelo
caminho correto do pano, ela ia cortando, costurando e finalizando as roupas
das suas freguesas.
Então, um dia ela ficou sabendo de um método (Magic Corte)
que ensinava como riscar e cortar roupas, e resolveu aprender. Foi ao SESI, fez
inscrição e, à noite, eu ia com ela aprender como usar os gabaritos para fazer
todo tipo de roupa. Eu só a acompanhava, mas acabei vendo e aprendendo um pouco
como fazer os riscos que seriam a guia para o corte do tecido. E ela ia cada
dia mais, melhorando e aperfeiçoando sua costura, usando a mágica dos gabaritos
e dando uma força ao santo, que tinha lá seus outros afazeres.
Depois de um tempo, com um dinheirinho poupado aqui, uma
costurinha a mais dali, ela empreendeu a compra de uma nova máquina de costura, que tem até hoje.
Essa sim, elétrica, cheia das bobinas e funções que agregavam ainda mais valor
às roupas que ela fazia. E por muito tempo, Dona Ambrozina, como sempre foi
chamada pelas freguesas, foi construindo sua fama de grande costureira. E eu,
cresci, mas nunca me esqueci dos dias ao pé da máquina, da correia de couro
fino que às vezes escapava, da compra de linha em retrós ou carretel, de riscos
com gabaritos e de idas e vindas ao SESI com ela.
Saudade boa!

2 comentários:
Que lindo texto!
Texto Sensacional Ge! Tenho as mesmas lembranças da minha avó!
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