domingo, 26 de abril de 2020

Os cravos de abril

Estava para completar 14 anos em maio. Eu ia na escola e ajudava, de vez em quando, na lojinha da família. Nossa casa era na Vila Monteiro e me lembro que neste dia a Vó Maria estava em casa. Assistindo televisão, lembro de uma interrupção da programação, achei essa, mas não posso afirmar que era a da época
https://youtu.be/YNRu7YbWRTg
e foi dada a notícia do que estava se passando em Portugal, a queda do governo.
Não me recordo se foi dito que era a chamada Revolução dos Cravos. Provavelmente não. A nota foi lida por Heron Domingues, um dos primeiros âncoras da rede Globo.






Eu não tinha a real noção do que estava ocorrendo no nosso país, e nas escolas nos ensinavam que vivíamos em uma democracia (imaginem só) em que o presidente era escolhido de forma indireta. Na São Carlos daquele tempo, as questões políticas não eram nenhuma prioridade para mim, e nem para a minha família. Estávamos na busca de viver, pagando aluguel de casa, tirando um dinheirinho de uma lojinha (bazar) e seguindo a vida.


Então, a notícia na televisão foi dada como se fosse um problemão para os portugueses, e só tempos depois fui entender que, na verdade, havia uma preocupação no Brasil, de que a revolução portuguesa pudesse suscitar algo semelhante aqui, já que estávamos no décimo ano do golpe militar que derrubou um regime democrático e implantou uma ditadura no nosso país.

É assim que me lembro desse momento da história
.




quarta-feira, 22 de abril de 2020

O COVID-19 e o VITILIGO


NOTA IMPORTANTE: Este material tem como finalidade ajudar a quem, assim como eu e minha esposa, está buscando informações a respeito da interação entre COVID-19 e VITILIGO. É uma livre tradução de uma página do site da UMASS Medical School, que foi publicado no dia 14 de março de 2020. É muito importante que seja verificado toda e qualquer atualização sobre o tema, antes de tomar estas como informações finais.






Corona vírus e vitiligo

Publicado: Sábado, 14/03/2020



Muitos estão me perguntando se os indivíduos com vitiligo estão em maior risco de contrair o novo corona vírus, o COVID-19, responsável por uma pandemia em andamento. No geral, a resposta é não. Imaginei que dedicaria algum tempo para escrever este blog enquanto eu e minha família estivéssemos "socialmente distanciados" a fim de retardar a propagação da pandemia em nossa pequena parte do mundo. Então, estamos presos em nossa casa e pensando em todos que estão preocupados com o que essa pandemia significa para eles e seus entes queridos.

O vitiligo é uma doença de pele autoimune, o que significa que alguém com vitiligo tem um sistema imunológico que está apresentando um mau funcionamento em pequena escala. O papel normal do sistema imunológico é protegê-lo contra infecções e câncer. Assim como qualquer característica que você possa ter (altura, peso, cor do cabelo etc.), sua composição genética pode influenciar a qualidade e a força de sua resposta imune. No vitiligo, as células imunológicas estão atacando os melanócitos, ou células pigmentares, mesmo que as células não sejam perigosas.

Assim, como algumas pessoas são muito altas, outras são muito baixas e a maioria está em algum lugar no meio, algumas pessoas têm um sistema imunológico muito forte em uma área, muito fraco em uma outra área ou em algum lugar no meio. Indivíduos com vitiligo têm uma resposta imune muito forte contra seus melanócitos, o que resulta nessas células normais sendo mortas e manchas brancas aparecendo onde isso aconteceu, porque não conseguem mais pigmentar. Sob certa perspectiva, isso é realmente bom, pois significa que eles têm um risco menor de desenvolver melanoma e outros cânceres de pele (é o que essa parte da resposta imune deve estar fazendo - protegendo do melanoma). Então esse “mal funcionamento” do sistema imunológico, está causando manchas brancas na pele, mas também está diminuindo as chances de câncer de pele - acho que isso é "bom" ou "ruim" depende da sua perspectiva.

Mas, de qualquer maneira que você olhe, isso não significa que seu sistema imunológico esteja fraco porque você tem vitiligo. Na verdade, isso significa que é um pouco forte demais, então você provavelmente NÃO é mais suscetível ao corona vírus ou a qualquer outro vírus. Alguns de meus pacientes relatam que têm menos infecções do que seus amigos e familiares, e isso pode refletir o fato de o sistema imunológico estar um pouco hiperativo. Mas só porque o sistema imunológico é hiperativo em um aspecto pequeno (contra os melanócitos), isso não significa necessariamente que ele é forte em todos os aspectos, então todos provavelmente são um pouco diferentes. Mas, em geral a mensagem final, é que ter vitiligo não significa que seu sistema imunológico esteja fraco ou que é mais provável que você tenha uma infecção.

Obviamente, sempre há exceções à regra. Em casos muito raros, os pacientes sofrem de doenças autoimunes porque seu sistema imunológico apresenta um mau funcionamento mais significativo que pode aumentar a probabilidade de desenvolver VITILIGO (ou outras doenças autoimunes) E INFECÇÕES. Este não é o caso da maioria das pessoas, e se você tivesse uma dessas síndromes, provavelmente já a conheceria. Um exemplo disso é a Síndrome de Imunodeficiência Variável Comum (IDCV), e eu só vi uma ou duas pessoas com isso em toda a minha carreira. Então, novamente, isso é muito incomum e não sabemos ao certo por que o sistema imunológico funciona dessa maneira nessas pessoas, mas a maioria das pessoas com vitiligo NÃO tem isso.

Outra ressalva a se considerar é quando os pacientes com vitiligo estão usando tratamentos para prevenir a propagação de sua doença ou revertê-la. A maioria desses medicamentos suprime o sistema imunológico de alguma forma, uma vez que a causa central do vitiligo é a autoimunidade ou hiperatividade da resposta imune. De fato, é para isso que eles agem. Muitos estão usando pomadas ou cremes tópicos, e estes têm um risco MUITO baixo (ou NÃO têm risco) de afetar sua capacidade de combater as infecções, uma vez que muito pouco, se houver, do medicamento vai além da pele. Além disso, muitos outros estão usando tratamentos de luz UVB de banda estreita, que novamente afetam apenas a pele e isso não é mais perigoso do que sair ao sol (na verdade, muito MENOS perigoso, mas esse é outro assunto).

Algumas pessoas estão tomando baixas doses de esteróides via oral, que usamos para impedir a propagação do vitiligo em pessoas com doenças muito ativas. Eu costumo usar dexametasona em apenas 2 dias por semana por cerca de 3 meses, porque parece funcionar muito bem e não tem efeitos colaterais para a maioria das pessoas. Em teoria, isso pode afetar o sistema imunológico mesmo além da pele, porque é tomado por via oral. No entanto, praticamente não vimos riscos aumentados de infecção em pacientes que tomam dessa maneira, provavelmente porque é uma dose muito baixa. Por ser tão bem tolerado, gostamos de usá-lo quando necessário. [ N.T.: Nunca se automedique. Procure sempre a orientação de um médico. ]

Finalmente, alguns pacientes estão tomando medicamentos mais novos off-label (que são os medicamentos que são aprovados pela FDA para uma doença, mas usados para outra) ou como parte de um ensaio clínico. Os exemplos incluem os novos inibidores de JAK, como Xeljanz (tofacitinibe) e Jakafi (ruxolitinibe), bem como algumas versões mais recentes que ainda nem têm nomes reais. Novamente, os usados topicamente não parecem ter nenhum efeito no sistema imunológico fora da pele. Algumas pessoas estão tomando inibidores orais do JAK para vitiligo, Xeljanz off-label ou medicamentos mais recentes em um ensaio clínico. Para ser completamente honesto, ainda não sabemos como esses medicamentos afetarão as respostas a infecções como o corona vírus. Eles são um tanto "direcionados", o que significa que não estão apenas suprimindo toda a resposta imune, estão afetando apenas uma parte dela, a parte que está causando autoimunidade no vitiligo e em outras doenças. Mas ainda não sabemos todos os detalhes sobre como o sistema imunológico funciona, por isso estamos trabalhando para melhorar esse entendimento. Para tornar as coisas ainda mais complicadas, alguns médicos estão atualmente usando inibidores JAK para tratar pessoas com infecções graves por corona vírus, pois aparentemente os sintomas mais graves são de uma reação exagerada do sistema imunológico ao vírus, o que prejudica os pulmões. Portanto, esses medicamentos podem até ajudar aqueles que estão infectados de alguma forma. [ N.T.: Nunca se automedique. Procure sempre a orientação de um médico. ]

Em resumo, na maioria dos casos, você não corre um risco maior de contrair COVID-19 se tiver vitiligo. Se você estiver tomando medicamentos para o vitiligo e ainda estiver preocupado com a forma como isso pode afetá-lo, converse com seu médico. E, como dizemos a todos, faça sua parte para impedir a propagação do vírus durante esta pandemia, lavando as mãos, não se reunindo em grandes grupos e encontrando pessoas por telefone ou videoconferência em vez de pessoalmente, quando possível. Existem três coisas que afetam a propagação do vírus:
1. quantas pessoas estão infectadas hoje,
2. quantas pessoas elas entram em contato todos os dias e
3. a rapidez com que o vírus é capaz de se espalhar.

Você pode afetar duas dessas variáveis limitando o contato com outras pessoas e lavando as mãos regularmente.

Nós vamos superar isso, mas temos que trabalhar juntos e apoiar um ao outro. Nós da VITILIGO CLINIC & RESEARCH CENTER estamos pensando em como podemos ajudar com isso. De acordo com a política da UMass, paramos nossa pesquisa por algumas semanas. Não se preocupe, voltaremos à nossa busca de cura o mais rápido possível. Também estamos pensando em como podemos limitar a disseminação na clínica e discutir políticas agora.

Fique ligado!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O nome do mal


Ao personificar o mal, dando a ele uma figura, o ser humano passa a atribuir a esse ente a responsabilidade da maldade que ele próprio comete, ao invés de assumir que essa ação, inerente ao ser humano, deve ser controlada e dominada, para que não sejamos levados a cometer injustiças e causar a infelicidade a outrem.

A Queda do Homem – Ticiano Vecellio
Assim, quanto antes o ser humano se conscientizar que o mal está intrínseco a mente de cada um, e que somente ele próprio pode subjugar a maldade e fazer florescer a fraternidade, mais cedo alcançaremos um estado de bem viver. Enquanto creditamos nossas próprias falhas a um "ser" fora de nós mesmos, mais demorará para nos tornarmos conscientes da necessidade de mudança própria, mudança pessoal.


Ora, se o mal que eu pratico é por sugestão de alguém, que não sou eu mesmo, porque preciso mudar minha conduta? Que necessidade há ainda, nos dias de hoje, de ter uma figura que representa o mal?

Seria tão difícil explicar às pessoas que a maldade fica dentro delas mesmas?


Nossa personalidade, nosso caráter, nossa formação mental não seria suficientemente desenvolvida para entender que o mal é praticado por seres humanos, porque assim o decidiram, assim o quiseram? E não por um ser extra-humano que obriga as pessoas a errar.
Jesus expulsa os mercadores do templo
Afresco na igreja de São Maurício no Grande Mosteiro de Milão

Que interesses se ocultam na ideia de atribuir o mal a um ser fora de nós mesmos?

A resposta talvez seja que, se há uma figura a ser combatida, então podemos oferecer proteção contra ela. Mediante algo em troca, evidentemente. Seria essa a mercadoria a ser vendida por exploradores da fé.


Mas, ao contrário, quando mostramos que a mudança e a rejeição ao mal deve vir de dentro de cada pessoa, então não há como obter ganhos com isso, a não ser para a própria pessoa que se descobre como um ser falível, mas com capacidade de mudar.


Pense nisso.