Hoje é dia do músico. Ser que tira o som de onde não
há, faz vibrar um tom roubado da natureza, acrescenta ou não a poesia e lança
um encanto, que de magia enche o momento.
A pouco me dei conta que, nas partituras ou partes duras da
vida, sempre estive ligado de algum modo a música. No berço, fui embalado por
um som de viola, daquela cabocla mesmo, lavrada da madeira, riscada no fogo e
polida com cera. De ponteado em ponteado, para a paz do sono ia sendo levado.
Pinho que era acariciado pelo Seu Tunico, caboclo brabo, talhado nas
dificuldades da vida, e desde muito menino, desafiado na dureza da realidade. De
quando em vez, Dona Ambrozina me ninava com uma canção lembrada da sua curta
infância, quase perdida nos cantões da memória.
Nunca consegui aprender um acorde sequer nas dez cordas da
viola, e tive que me contentar com as seis do violão, trilhado nos vigus das
bancas, que até hoje guardo em pasta, já amarelados pelo tempo, mas com muitas letras
e acordes gravados na memória. Toquei em missa, quando ainda me fazia sentido,
em serenata, em festas, e até em festivais me aventurei.
Acompanhado pelo coral das três meninas do Brasil, afirmamos
que I want to go back to Bahia, sem nunca termos estado lá. Mas que nada, quantas
vezes entrei numa wave, para não deixar que o cotidiano me engolisse, nem o nº 2,
afinal eu ainda tenho meu violão. Pelos bailes da vida, jamais neguei as
origens, e junto com Chico Mineiro, fiz muita gente se lembrar de um menino da porteira
e depois seguir a ventania do cavalo preto. Lá pelas tantas, quando o som se
tornava mais etílico, vi muita gente rindo da italianíssima Concheta, que com uma
língua de trapo, espiava num xerox escuro, que mal dava pra ver as letras.
Aliás, esse é o melhor momento da violada. Quando diminui o sangue na corrente
alcoólica, todo mundo canta, todo mundo sabe a letra, todo mundo vira músico e
solta a voz na estrada.
Parabéns a todos os músicos, pelo seu dia e muito obrigado, pelas nossas
noites.





