segunda-feira, 15 de junho de 2009

Dois é bom, três é demais.

Como metáfora está na última moda, ai vai a minha: tentar aprovar uma PEC (proposta de emenda da constituição) que permita o terceiro mandato é como propor uma alteração no campeonato para garantir a vitória de um time favorito. A aprovação do segundo mandato também teve esta conotação. O que deveríamos mesmo era mudar a lei no sentido de que propostas oportunistas como esta, não pudessem ser desfrutadas pelos atuais mandatários, e somente começassem a valer a partir do mandato seguinte. A democracia prevê uma sadia alternância de poder e esta tentativa de proclamação da monarquia é e está totalmente fora de época. Eu vou ficar atento e saber qual a opinião dos representantes que eu elegi, para não correr o risco de acordar, de um dia para o outro, com uma novidade desagradável, como tantas que já tive que deglutir. Não estou aqui discutindo se o atual governo fez (está fazendo) um bom mandato, pois aquela é uma decisão que impacta o futuro, e nada garante que o futuro repita o passado, parafraseando nosso poeta Cazuza. Uma máxima do futebol, bem ao gosto do nosso representante não menos máximo, diz que em time que está ganhando não se mexe. Porém, contudo, todavia, não obstante, uma lei da natureza afirma que o que não evolui atrofia e morre. O que os oportunistas de plantão precisam saber, e aceitar, é que a atual legislação não impede que um candidato do próprio partido do atual governo, dispute o pleito. Mas, se o referido partido não se preocupou, ou não teve a competência necessária, em preparar um sucessor, não deve ser a sociedade a pagar por isso. Eu estou muito à vontade para emitir esta minha opinião por vários motivos: primeiro, de todas as eleições disputadas pelo atual presidente, só não votei nele no primeiro turno de sua primeira disputa à corrida presidencial, quando vi mais qualidades em Covas. Mas já segundo turno desta mesma eleição, e a partir de então, só votei nele. Segundo, minha opinião é que este governo, apesar de um sem número de coisas que poderiam ter sido feitas, ou feitas melhor, proporcionou ao país um período que eu, com meus quase meio século de vida, não tinha ainda podido desfrutar. Mas estes oito anos foram suficientes para mostrar e registrar isso na história nacional. Então concluindo, mas sempre aberto para ampliar a discussão, peço a quem comigo compartilha a opinião, por estes ou por quaisquer outros motivos, que nos juntemos para fiscalizar e evitar surpresas no café da manhã.

domingo, 14 de junho de 2009

Comentário Infeliz

Olhando um pouco para o meu passado, lembrei-me de um caso que ocorreu no final dos anos sessenta. Eu fazia a segunda série do antigo primário. Estudava pela manhã, e o meu professor, até então, era um sisudo senhor chamado Ulisses. Um homem como professor primário já não era comum de se ver, em um momento da história em que essa classe era dominada pelas mulheres. Abrindo parênteses, anos mais tarde, um político paulistano respondeu, ao ser questionado a respeito do baixo salário das professoras, que elas não ganhavam mal, mas sim eram mal casadas. O supra-sumo da canalhice, muito ao gosto deste senhor, que ainda hoje custa a deixar a política. Mas, voltando ao tema, naquela época, meu pai era vendedor ambulante, tinha um carro, se não me falha a memória, um Jeep ano 1951, cinza chumbo, comprado a duras penas e perdido para um mau caráter. Ele comprava e revendia enxovais, roupas de cama, mesa, banho, roupas de trabalho, etc. Ele saía pela manhã e visitava as fazendas e também algumas pequenas cidades da região de São Carlos, para poder trazer o sustento da família. Cada dia era um local diferente, e muitas vezes, nas minhas férias, eu o acompanhei. Pois bem, naquela manhã de aula, o “Seu” Ulisses, estava questionando seus alunos a respeito da profissão de seus pais. Quando chegou minha vez, o professor me perguntou: - O que seu pai faz? – e eu respondi que era vendedor. Ele então me perguntou: - E onde ele está agora? – e eu respondi que não sabia. Minha resposta veio então seguida do seguinte comentário infeliz: - Que família desorganizada! O pai sai e o filho não sabe onde foi! Mesmo para um pirralho que tinha entre sete e oito anos, aquilo foi um choque. Uma observação daquela me magoou profundamente. Terminada a aula, sabe-se lá de que forma, voltei para casa e, como toda mãe que enxerga o que não aparece, D. Ambrozina me perguntou o que estava me incomodando. Contei a ela, o que havia ocorrido, procurando não deixar escapar nenhum detalhe. Ela repassou comigo várias vezes a história, para se certificar que não havia nenhum exagero, e me disse para não ficar preocupado e à noite, quando meu pai chegasse, era para eu contar tudo a ele, tal como havia feito com ela. Perto das seis horas, meu pai chegou, guardou o carro e eu fui até ele, abracei-o e contei tudo o que aconteceu. Meu pai me abraçou forte e disse para não ficar chateado, para dormir tranqüilo e que, na manhã seguinte, me levaria à escola. E assim foi feito. Quando chegamos, meu pai disse que era para eu ficar ao lado dele, e que iríamos falar com o “Seu” Francisco, o Diretor do Grupo Escolar Bispo Dom Gastão. Na sala da Diretoria, meu pai pediu que fosse chamado o professor Ulisses, para termos, os quatro, uma conversa para esclarecer alguns fatos ocorridos no dia anterior. Mesmo com a insistência do diretor, meu pai não adiantou o assunto, dizendo que falaríamos quando o professor chegasse. Eu me sentia muito seguro, ao lado do meu pai, e principalmente porque eu estava com a verdade do meu lado. Ao chegar, o professor foi cumprimentado pelo meu pai, e já me pediu para contar novamente o que havia ocorrido. O professor quis interromper minha explicação, mas meu pai o impediu, dizendo que ele teria oportunidade de se expressar, após minha explanação. O professor então, disse que não era bem assim que havia ocorrido, e que eu havia entendido errado o que ele havia dito. Meu pai o lembrou que uma das tarefas de um mestre é garantir o entendimento correto por parte dos alunos, e que comentários como aquele não eram pertinentes em uma sala de aula, e nem a nenhum dos alunos ali presentes. Como ele nada poderia fazer pelos outros alunos, para vê-los livre deste infeliz comportamento, ao menos ao filho dele ele fazia questão que eu mudasse de sala, e se não fosse possível isso, que a mudança seria então de escola. O Diretor sugeriu que talvez houvesse um pouco de exagero da minha parte, mas meu pai disse que tinha plena confiança na educação que havia me dado, e que a mentira nunca fora tolerada em casa, porém se houvesse alguma dúvida quanto ao que eu havia relatado, ele preferia ficar com a minha palavra e sem a escola a tolerar aquele tipo de comentário a respeito de sua família. O resultado é que naquele mesmo dia, e a partir de então, eu teria aula com a Dona Terezinha, de quem também tenho uma história para contar, mas fica pra outra ocasião. Muitas lições me trouxeram aquele episódio e tenho absoluta certeza que, aquela atitude firme e assertiva de meus pais, forjaram o que eu viria a ser mais tarde. Creio que as pessoas que me conhecem, certamente irão reconhecer uma ligação desta história com alguma atitude minha. É isso.