quinta-feira, 19 de junho de 2008

Aventuras doloridas

Nasci em um tempo que dar à luz em casa era o comum. Hoje, graças a algumas iniciativas “pioneiras” e, portanto, corajosas, parece que as mulheres estão redescobrindo esta forma natural de por gente no mundo (certo Jamile?). Então, como ia dizendo, nasci em uma casa na Vila Prado, hoje ela já não existe mais. Na época a casa já era velha. Tinha um quintal bem grande, bananeiras e muito lugar para brincar. Um dia, eu e o Rique estávamos brincando...Bem, é melhor refrasear...Um dia, o Rique estava tentando brincar e eu tentando me intrometer na brincadeira dele. Ele estava fazendo um arco de bambu, com algumas flechas e a idéia era flechar a pobre da bananeira. Lá pelas tantas, depois de feitas as flechas, eu resolvi segurar todas nas minhas mãos, e assim garantir a condição de que eu seria o primeiro a atirar, algo que era muito importante para mim, ainda que até hoje eu não faça a menor idéia do motivo pelo qual era importante. Então foi nesse momento que o Rique me pediu para buscar um alicate, creio que era para poder finalizar o arco e iniciar a brincadeira. Eu sempre muito esperto (lembra da lata na cabeça, não é?) resolvi que, para não perder a chance de ser o primeiro, resolvi levar comigo todas as flechas. Espertíssimo! Para entrar em casa, havia uma pequena escada de três degraus onde, ao subir, acabei escorregando. E para evitar dar com a cara no chão, protegi a queda com as mãos. Pois é, nem preciso dizer que uma das flechas abriu um belo de um rasgo no meu queixo. Minha mãe, acostumada a tratar ferimentos com água morna e bálsamo, ao tentar limpar o machucado, percebeu que não se tratava de um pequeno raspão, e sim que era algo mais sério e necessitava de maiores cuidados. E lá fomos nós, eu e minha mãe, segurando uma toalha junto ao meu queixo que jorrava sangue. A pobre devia estar com as pernas bambas, mas nessas horas mãe não tem tempo de sentir medo, faz o que é preciso e, se der tempo, chora depois. Primeiramente fomos até o Posto de Saúde da Vila Prado e o enfermeiro que examinou disse que era preciso dar pontos, o que não poderia ser feito ali. Fomos então até o Pronto Socorro da Avenida São Carlos (onde é até hoje), e uma vez mais minha mãe foi informada que a linha que tinham ali era muito grossa e que era preciso ir até a Santa Casa. Acho que fomos de ônibus. Chegando lá fui atendido e, finalmente, ganhei três pontos no meu queixo. Ainda é possível ver a cicatriz dessa minha aventura. Saí de lá com um curativo, que me deixava com a aparência de um faraó que eu havia visto em um livro, que tinha um enfeite no queixo.
Tive outras passagens em que foi necessário recorrer ao sistema de saúde da cidade. Um escorregão ao entrar correndo na sala, que estava sendo limpa, fez com que uma tachinha de pregar passadeira (algo como um tapete comprido, preso por tachinha e que ia de uma porta à outra na sala) abriu uma brecha na minha mão esquerda. A preparação de um sanduíche de pão com queijo prato, cortado em uma máquina de cortar frios, e com um pedaço de queijo já no finalzinho, cortou a falange do dedo mínimo da mão esquerda em duas partes quase iguais e também a minha vontade de comer o sanduíche, é óbvio. Assim, essas lembranças deixaram marcas na minha memória, e principalmente, nas partes do corpo atingidas. Mas, imagino como deve ter sido barra pesada para minha mãe agüentar tanto sangue. Valeu, D. Ambrozina. Brigadão pela força.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O aeromodelo

Primeiramente tenho que mencionar duas importantes leis. A primeira é uma lei da Física. Um cordão, com um objeto preso a uma de suas extremidades e segurado pela extremidade oposta, quando submetido a um movimento giratório, faz com que o objeto descreva um movimento circular, de raio igual ao comprimento do cordão. Se em determinado momento, o objeto ou parte dele, por qualquer força exercida, se desprende do cordão, segue em linha tangencial ao movimento giratório, até que perca a força e cai, ou até que encontre um obstáculo que, se for mais duro deforma o objeto em questão e se for menos duro deforma o obstáculo encontrado. (Espero que a Martha e a Barbara me perdoem se isso for uma heresia). A segunda é conhecida mundialmente como a primeira lei de Murphy: Se alguma coisa tem a possibilidade de dar errado, dará. Além disso, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior estrago possível. Muito bem, declaradas as leis, vamos propriamente à história. Eram os idos de 1.969, logo após a realização do sonho americano, que colocou um homem na Lua. Eu, que já era fanático por aviões, e máquinas voadoras, estava alucinado com a idéia de uma dessas ter conseguido a grande façanha. Minha infância foi bem servida de brinquedos, simples, pouco sofisticados, mas eu compensava isso com uma baita de uma imaginação e desenfreada criatividade. Eu tinha um aviãozinho feito de um plástico pouco rígido, alaranjado, ele tinha as hélices brancas, e um pilotinho que mostrava somente as mãos segurando o manche e a cabeça com seu capacete. O danado do piloto era bem feinho, e somente muito tempo depois é que fui saber que direção de avião se chamava manche. Pois bem, eu estava brincando com este aviãozinho. Meus braços eram a propulsão e a vibração dos meus lábios o ronco dos motores. Então, me veio a idéia de transformar aquele mísero avião em um poderoso aeromodelo, como um que tinha visto em algum lugar. Peguei um barbante, fiz um pequeno furo na extremidade de uma das asas e prendi o barbante ali, com um nó bem apertado. Tão logo comecei a girar o avião, percebi que meu invento tinha uma falha de projeto, pois o avião não se mantinha em posição de vôo. Ele ficava dando piruetas, sem controle. Então me veio uma idéia. Eu imaginei que colocando um peso no avião, faria com ele se mantivesse na posição que eu desejava. Então, como uma das outras brincadeiras que eu gostava era jogar bolinha de gude, peguei a maior que eu tinha. Era uma bola de aço, bastante pesada, e decidi que aquele seria o objeto ideal para dar sustentação ao meu aeromodelo. Peguei uma tesoura e, com muito cuidado, decepei a cabeça do pobre piloto feio. O cuidado era com os meus dedos, bem entendido. Forcei a bola de gude no recorte até que ela se encaixou ali. Voltei ao meu campo de prova, que era o quintal, e comecei a testar minha engenhosa idéia. Fiquei feliz ao ver que, ainda que não totalmente, mas o avião ganhou um jeito de que estava voando. E, empolgado com o sucesso, fui acelerando cada vez mais, fui girando, girando, girando, e...num conluio cósmico, as duas leis que mencionei no início, se juntaram. O “objeto” em questão era o avião e a “parte dele” era a bola de gude. O “obstáculo” era o vidro da janela da casa vizinha, que por ser “menos duro”, ficou toda “deformada”. Bem, é óbvia a atuação da segunda lei na questão. Assim que consegui compreender o que havia ocorrido, que coincidentemente, quando o avião voltou a fazer piruetas descontroladas, ouvi um barulho de vidro quebrado, tratei de esconder meu invento e, disfarçadamente, como quem acaba de aterrissar usando suas próprias asas, fui para dentro de casa. A pobre vizinha, coitada, deve ter pensado que aquele objeto de metal, certamente era uma das peças daquela geringonça, o tal de foguete, que passou na televisão (preto e branco, com um plástico colorido na frente da tela), que estavam falando que tinha ido para a Lua e que ia soltando pedaços no céu. E uma dessas peças soltas tinha que cair justamente na sua janela? Que falta de sorte! A minha e a dela.