Nasci em um tempo que dar à luz em casa era o comum. Hoje, graças a algumas iniciativas “pioneiras” e, portanto, corajosas, parece que as mulheres estão redescobrindo esta forma natural de por gente no mundo (certo Jamile?). Então, como ia dizendo, nasci em uma casa na Vila Prado, hoje ela já não existe mais. Na época a casa já era velha. Tinha um quintal bem grande, bananeiras e muito lugar para brincar. Um dia, eu e o Rique estávamos brincando...Bem, é melhor refrasear...Um dia, o Rique estava tentando brincar e eu tentando me intrometer na brincadeira dele. Ele estava fazendo um arco de bambu, com algumas flechas e a idéia era flechar a pobre da bananeira. Lá pelas tantas, depois de feitas as flechas, eu resolvi segurar todas nas minhas mãos, e assim garantir a condição de que eu seria o primeiro a atirar, algo que era muito importante para mim, ainda que até hoje eu não faça a menor idéia do motivo pelo qual era importante. Então foi nesse momento que o Rique me pediu para buscar um alicate, creio que era para poder finalizar o arco e iniciar a brincadeira. Eu sempre muito esperto (lembra da lata na cabeça, não é?) resolvi que, para não perder a chance de ser o primeiro, resolvi levar comigo todas as flechas. Espertíssimo! Para entrar em casa, havia uma pequena escada de três degraus onde, ao subir, acabei escorregando. E para evitar dar com a cara no chão, protegi a queda com as mãos. Pois é, nem preciso dizer que uma das flechas abriu um belo de um rasgo no meu queixo. Minha mãe, acostumada a tratar ferimentos com água morna e bálsamo, ao tentar limpar o machucado, percebeu que não se tratava de um pequeno raspão, e sim que era algo mais sério e necessitava de maiores cuidados. E lá fomos nós, eu e minha mãe, segurando uma toalha junto ao meu queixo que jorrava sangue. A pobre devia estar com as pernas bambas, mas nessas horas mãe não tem tempo de sentir medo, faz o que é preciso e, se der tempo, chora depois. Primeiramente fomos até o Posto de Saúde da Vila Prado e o enfermeiro que examinou disse que era preciso dar pontos, o que não poderia ser feito ali. Fomos então até o Pronto Socorro da Avenida São Carlos (onde é até hoje), e uma vez mais minha mãe foi informada que a linha que tinham ali era muito grossa e que era preciso ir até a Santa Casa. Acho que fomos de ônibus. Chegando lá fui atendido e, finalmente, ganhei três pontos no meu queixo. Ainda é
possível ver a cicatriz dessa minha aventura. Saí de lá com um curativo, que me deixava com a aparência de um faraó que eu havia visto em um livro, que tinha um enfeite no queixo.
possível ver a cicatriz dessa minha aventura. Saí de lá com um curativo, que me deixava com a aparência de um faraó que eu havia visto em um livro, que tinha um enfeite no queixo.Tive outras passagens em que foi necessário recorrer ao sistema de saúde da cidade. Um escorregão ao entrar correndo na sala, que estava sendo limpa, fez com que uma tachinha de pregar passadeira (algo como um tapete comprido, preso por tachinha e que ia de uma porta à outra na sala) abriu uma brecha na minha mão esquerda. A preparação de um sanduíche de pão com queijo prato, cortado em uma máquina de cortar frios, e com um pedaço de queijo já no finalzinho, cortou a falange do dedo mínimo da mão esquerda em duas partes quase iguais e também a minha vontade de comer o sanduíche, é óbvio. Assim, essas lembranças deixaram marcas na minha memória, e principalmente, nas partes do corpo atingidas. Mas, imagino como deve ter sido barra pesada para minha mãe agüentar tanto sangue. Valeu, D. Ambrozina. Brigadão pela força.