terça-feira, 20 de maio de 2008

Uma piada fora de hora

Naqueles anos 60 e tantos, quando muita gente tomava borrachada da polícia e era torturada pelos porões da ditadura instaurada, eu, sem a menor noção de que isso pudesse estar ocorrendo, tive meu dia corretivo. Estava eu praticando meu esporte favorito de caçula, que era perturbar os irmãos mais velhos. Era uma bela tarde de final de semana, creio que era Sábado. Meu irmão estava se preparando para sair, fazendo a barba, e eu lá, pentelhando a vida dele. A dose foi tão grande, que, de repente, o meu mano disse: -Agora chega, não agüento mais! Fique quieto! Não quero ouvir mais nenhum pio! Eu, no alto de toda minha experiência e com um questionável senso de humor, naquele mesmo instante, soltei um som tão baixinho quanto fininho: - Piiiio! Pois é, mas não foi baixinho o suficiente. Meu irmão ouviu, e ato contínuo, deu-me um tapão daqueles que, só de lembrar, meu ouvido dá sinal de ocupado. Foi desse jeito. Eu achei que aquela piada era uma boa piada. Mas, meu irmão não gostou da piada, nem achou graça da piada. É claro que eu chorei, afinal o tapão não foi para tirar a poeira. E também fiquei muito chateado naquele momento. Mas, depois entendi. Aliás, este meu mano sempre me deu valiosíssimas lições de vida. A bem da verdade, para ser justo, não foi só ele. Por ser o caçula, e todos os meus irmãos terem uma diferença de idade considerável (eles vão odiar quando lerem esta frase), eu fui uma espécie de cobaia para eles, que no futuro seriam pais e mães. Testavam em mim, a forma como agiriam no futuro com seus próprios filhos. Algumas vezes as lições doíam, mas sempre traziam uma dose generosa de amor. Até porque, tenho que reconhecer que haviam, em maior número, momentos de declarada corujisse e bajulação ao caçula.
Não sei se meu irmão Avelino se lembra desta história, mas eu jamais esqueci. Não porque fiquei com raiva, mas porque depois de ter refletido a situação toda, compreendi que eu precisa respeitar as pessoas, principalmente quem era mais velho (e mais forte). Sempre que me deparo com uma situação engraçada, mas que pode vir a perturbar quem, por estar envolvido com o tema, certamente não vai gostar, me seguro, conto até dez, respiro fundo e deixo para soltar a piada depois, quando o momento já está frio e, portanto, mais fácil de digerir. Valeu, mano, por mais esta lição.

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