Aqui deixo meus comentários sobre o cotidiano. Minhas idéias, meu jeito de ver o mundo, minhas lembranças, enfim...um pouco de mim.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Uma mistura para o arroz
Eu não sabia, e nem sei até hoje, o nome daquela senhora. Não era parente nossa. Nem sequer uma vizinha conhecida. Sei que carregava nos ombros o peso da idade avançada, tinha sempre um lenço envolvendo os brancos cabelos presos, e era bem magrinha. Não sei de onde vinha e muito menos para onde ia. A única coisa que sei é que, sempre que eu a via, sentia uma vontade enorme de lhe dar alguma coisa. Normalmente era para comer. Corria para a quitanda e dizia para meu pai: - Papai, o que a gente pode dar pra minha amiga? E nunca houve sequer um sinal negativo para que algo fosse dado à aquela simpática senhora. Não me recordo muito bem, mas creio que ela sempre dizia: - Deus lhe pague, filho, vou levar para casa para comer com arroz. Acho que era mesmo só isso que ela contava para dar algum sabor diferente à sua parca refeição. Talvez minha mãe saiba mais sobre esta senhora, talvez não. Para mim basta saber que, ao avistar aquela velhinha, eu sentia vontade, quase uma necessidade de dar alguma coisa pra ela. Não sei quanto tempo durou esta história. Acho que cresci com esta figura na cabeça. Uma senhora, a quem eu gostava de dar algo, para ela comer com arroz. Se a minha memória não me trai agora, creio que minha mãe ficou sabendo o dia que ela morreu. Creio até que ela mandou rezar uma missa para ela, mesmo sem saber seu nome. É claro que o nome dela não importava, a intenção era mais forte. E com certeza Deus sabia para quem direcionar as orações e pedidos feitos naquela celebração. Como eu decidi escrever fatos que ocorreram na minha infância, e que marcaram minha via, esta história não poderia ser esquecida. O que será que me levava a agir daquela forma? Era um desejo inocente de ajudar alguém que passava necessidade? Seria ela alguém que, de alguma forma, já havia feito parte da minha existência? Não, sei e acho que dificilmente saberei a resposta. A verdade é que hoje me faz bem saber que, na minha infância, passou uma pessoa a quem eu, de uma forma muito singela, pude ajudar. Não esperava agradecimento ou recompensa, bastava para mim saber que eu tinha dado algo para ela. E tenho certeza que ela saía bem feliz, com o doce, o salgado, a fruta, ou outra coisa, seguindo seu caminho, e que em algum momento, mais tarde, ela se sentaria à mesa, se é que ela tinha uma, preparava seu arroz e o degustava, como quem prova o prato mais raro que existe, porção por porção, e entre uma colher e outra, um pedacinho do meu presente. Esta história eu termino com uma lágrima que eu teimo em conter, mas ela, desobediente que é, se põe a rolar. Certamente, Deus já me pagou.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Uma piada fora de hora
Naqueles anos 60 e tantos, quando muita gente tomava borrachada da polícia e era torturada pelos porões da ditadura instaurada, eu, sem a menor noção de que isso pudesse estar ocorrendo, tive meu dia corretivo. Estava eu praticando meu esporte favorito de caçula, que era perturbar os irmãos mais velhos. Era uma bela tarde de final de semana, creio que era Sábado. Meu irmão estava se preparando para sair, fazendo a barba, e eu lá, pentelhando a vida dele. A dose foi tão grande, que, de repente, o meu mano disse: -Agora chega, não agüento mais! Fique quieto! Não quero ouvir mais nenhum pio! Eu, no alto de toda minha experiência e com um questionável senso de humor, naquele mesmo instante, soltei um som tão baixinho quanto fininho: - Piiiio! Pois é, mas não foi baixinho o suficiente. Meu irmão ouviu, e ato contínuo, deu-me um tapão daqueles que, só de lembrar, meu ouvido dá sinal de ocupado. Foi desse jeito. Eu achei que aquela piada era uma boa piada. Mas, meu irmão não gostou da piada, nem achou graça da piada. É claro que eu chorei, afinal o tapão não foi para tirar a poeira. E também fiquei muito chateado naquele momento. Mas, depois entendi. Aliás, este meu mano sempre me deu valiosíssimas lições de vida. A bem da verdade, para ser justo, não foi só ele. Por ser o caçula, e todos os meus irmãos terem uma diferença de idade considerável (eles vão odiar quando lerem esta frase), eu fui uma espécie de cobaia para eles, que no futuro seriam pais e mães. Testavam em mim, a forma como agiriam no futuro com seus próprios filhos. Algumas vezes as lições doíam, mas sempre traziam uma dose generosa de amor. Até porque, tenho que reconhecer que haviam, em maior número, momentos de declarada corujisse e bajulação ao caçula.
Não sei se meu irmão Avelino se lembra desta história, mas eu jamais esqueci. Não porque fiquei com raiva, mas porque depois de ter refletido a situação toda, compreendi que eu precisa respeitar as pessoas, principalmente quem era mais velho (e mais forte). Sempre que me deparo com uma situação engraçada, mas que pode vir a perturbar quem, por estar envolvido com o tema, certamente não vai gostar, me seguro, conto até dez, respiro fundo e deixo para soltar a piada depois, quando o momento já está frio e, portanto, mais fácil de digerir. Valeu, mano, por mais esta lição.
Não sei se meu irmão Avelino se lembra desta história, mas eu jamais esqueci. Não porque fiquei com raiva, mas porque depois de ter refletido a situação toda, compreendi que eu precisa respeitar as pessoas, principalmente quem era mais velho (e mais forte). Sempre que me deparo com uma situação engraçada, mas que pode vir a perturbar quem, por estar envolvido com o tema, certamente não vai gostar, me seguro, conto até dez, respiro fundo e deixo para soltar a piada depois, quando o momento já está frio e, portanto, mais fácil de digerir. Valeu, mano, por mais esta lição.
sábado, 17 de maio de 2008
Uma lata na cabeça
Como caçula, quando criança vivia atrapalhando a brincadeira dos maiores. Lembro-me de um dia em que, juntaram todas as crianças, inclusive eu, bem no meio da rua. Alguém pegou uma lata de óleo, daquelas antigas, que eram quadradas, jogaram para cima e gritaram: -cabeça de quem cair, burro de quem fugir. E eu, numa atitude de extrema esperteza, e também para não ser tachado de burro, permaneci ali, parado, esperando a lata cair, enquanto todos os demais, burros, saíram correndo. Pois é, não deu outra, a maldita lata caiu exatamente na minha cabeça. Ok, mas eu não era burro, por que eu não fugi.Fico pensando que, algumas vezes, tem muita gente que age assim. Mesmo com um cenário totalmente adverso, continua agindo de uma forma que certamente vai levar a um final ruim. Talvez por uma necessidade questionável de fazer-se parecer inteligente, adotam uma atitude que os levará a obter exatamente o resultado contrário do que querem demonstrar. Talvez por não conseguir sair um pouco do problema, e avaliar de uma forma diferente, agem de maneira a piorar ainda mais a situação.
Ok, vamos lá...
Resolvi entrar nessa onda de blog. As vezes temos algo a dizer, mas nem sempre a quem. Outras vezes, temos algo a dizer e queremos dizer para várias pessoas. Creio que esta seja uma ferramenta para sanar estas questões.
Gosto de escrever, e então vou me dar bem por aqui.
Espero que possa ser ao menos divertido para alguém.
Gosto de escrever, e então vou me dar bem por aqui.
Espero que possa ser ao menos divertido para alguém.
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