Era final dos anos setenta, início de oitenta, século passado. Eu fazia parte de um grupo de jovens cristãos que gostavam muito de música ouvida, tocada ou cantada. Creio que no início, o grupo reunia-se para tocar nas missas. Não estou certo, pois entrei na turma depois do time já formado. Mais precisamente, eu comecei a participar quando voltei a morar em São Carlos , vindo de Ribeirão Preto. Foi em uma serenata, em que um dos violeiros, meu amigo-irmão Zé Geraldo, estava com o braço gessado, e mesmo assim tinha que tocar. Eu acabei indo para dirigir (na época eu ainda nem arranhava as cordas do pinho), pois tocar violão com braço quebrado já era sacrifício suficiente para ele. E assim, poupando o Zé Geraldo da terrível tarefa de dirigir o carro dele, lá fui eu de motorista do Fusca marrom. E de serenata em serenata, a coisa ficando séria, ou melhor, de sério não havia nada, pois a gente se divertia muito. Dia das Mães, Ano Novo, ou qualquer outra data inventada como pretexto e estávamos nós, de instrumento em punho, disposição e, lembrando Buarque, “também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão”. Daí em diante começou surgir outras idéias. Talvez embalados por uma tentativa de ressuscitar o sucesso dos antigos festivais de MPB da Record, havia festivais de música religiosa e outros de música laica. E nós participávamos de todos. Em Setembro de 1983, teve um festival no CAASO, Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira, da USP de São Carlos, chamado 1º. FESEM – Festival Secundarista de Música, onde inscrevemos três músicas e fomos premiados em duas. Fomos chamados depois para apresentar as músicas vencedoras na Escola Dr. Álvaro Guião, famoso Instituto, e não me lembro bem o motivo, mas teve até um cantor da cidade, chamado Zezinho Santilli, que nos convidou para acompanhá-lo nesta apresentação onde, depois da nossa, ele mostrou algumas de suas músicas gravadas.
O nosso conjunto tinha nome, era Grupo Tá Véia, num mal disfarçado cacófato, que designava a qualidade dos componentes da turma. A nossa música melhor colocada, 2º. Lugar, foi “O que seria do verde se todos gostassem do amarelo”, numa tentativa de pegar carona em músicas de nome comprido, como “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, música banida pela ditadura, mas que todo jovem sabia de cor e cantava escondido da repressão. Mas somente o tamanho do nome da música era semelhante, pois a nossa era um samba que falava de parcerias impensáveis como Ovelha e Sergio Mallandro; sacaneava com Sidney Magal e com Neuzinha Brizola, neta do político. Dizia que ouvir o cantor Nahim era mais difícil que falar desindexação, palavra em voga naqueles tempos inflacionados. Mexia com a conjuntura da Gretchem e terminava propondo fazer sabão dessa tralha toda, para elevar o nível da música brasileira. O refrão era uma homenagem ao locutor esportivo Osmar Santos, e dizia “Tchaca tchaca na butchaca, tchirulirulirulá. Oh! Como está a parada popular.” Já a outra classificada em 4º. Lugar era uma baladinha romântica, chamada “Desancorar”, bem mais séria e menos contestadora que a outra. A não classificada foi o samba-canção com um não sei quê de bossa-nova, “Jeito de Amar”. Havia também “Olha”, “Salário Mínimo”, “Canção do Laiá-laiá” e tantas outras que não me recordo. Tudo com muito bom gosto, sinceridade e até uma dose de ingenuidade. Tal como deve ser a vida. A todos os componentes do Grupo Tá Véia, meu muito obrigado e meu saudoso abraço.

