segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ficção brasileira

Na era dos lobisomens, crepúsculos e luas novas, me lembrei de um folhetim brasileiro, apresentado por duas vezes na televisão, cujo enredo trazia personagens e estórias prá lá de esquisitas e sobrenaturais, tais como: um pacato cidadão que possuía asas; um coronel que soltava formigas pelo nariz; uma senhora que, de tanto comer, explodia; outro que ao se emocionar, ameaçava cuspir o coração; uma dama da noite que quando excitada, ficava em brasa, literalmente, queimando tudo em que encostava; e um professor que, se não bastasse virar lobisomem, há anos não dormia e em suas andanças noturnas, jurava ter ser encontrado com personagens históricos, como D. Pedro I e Tiradentes.
Embalada por trilhas marcantes como: “Pavão Mysteriozo” (assim mesmo, com y e z – era o tema de abertura), de Ednardo (?), “Canção da Meia-Noite”, dos Almôndegas (??), “Caso Você Case”, com Marília Barbosa (+?-) e ainda, “Sou Estopim”, interpretado por Sonia Braga (sim, e mandava bem) que também era uma das moças do cabaré (e mandava melhor ainda). Além destas, haviam também outras cobras da MPB, como: Geraldo Azevedo (“Malaksuma” e “Juritis Borboletas”), Ney Matogrosso (“Prá Não Morrer de Tristeza”), Alceu Valença (“Borboleta Sabiá”), Gilberto Gil (“Jeca Total”), Fafá de Belem (“Xamêgo”) e os Luizes Gonzagas, o pai (“Capim Novo”) e o filho (“Chão Pó Poeira”).
Correndo o risco de revelar a idade, se você disse “Saramandaia”, já revelou. Mostrada a primeira vez em 1976 e a outra em 1983, ao redor de uma tema político – a troca do nome da cidade de Bole-Bole para Saramandaia – os atores iam revelando seus talentos, mostrando os personagens meio realistas meio fantásticos. Juca de Oliveira dava vida ao alado João Gibão. Antonio Fagundes estreava na Globo, interpretando Lua Viana, o prefeito, que era casado com Zélia, Yoná Magalhães. A musa Sônia Braga, era Marcina. Ary Fontoura era o lobisomem professor Aristóbulo. Castro Gonzaga era o coronel, nariz de formigueiro, Zico Rosado. Wilza Carla era a Dona Redonda, que explodiu de tão gorda. A inesquecível Dina Sfat, era Risoleta, dona da casa da luz vermelha, disposta a tudo para uma noite de amor com o lobisomem. Além destes, também fizeram parte do elenco: Milton Moraes, Sebastião Vasconcelos, Carlos Eduardo Dolabella (pai do dublê de badboy Dado Dolabella), Eloísa Mafalda, Natalia do Vale, Pedro Paulo Rangel, José Augusto Branco, Brandão Filho e muitos outros. Não esquecendo a participação especial de Tarcísio Meira, como D. Pedro I e Francisco Cuoco, como Tiradentes.
O autor Dias Gomes, era originalmente do teatro e teve várias peças censuradas no regime militar. Conta-se que foi demitido da Radio Nacional, por ser comunista. Começou na Globo após isso, e fez diversas novelas de sucesso, das quais destaco: O Bem Amado, de 1973. O Espigão, de 1974. A primeira versão censurada de Roque Santeiro, em 1975. Fez também minisséries, destacando: O Pagador de Promessas, As Noivas de Copacabana e Dona Flor e seus dois Maridos. Foi casado com a também novelista, Janete Clair, tendo sido vítima de uma brincadeira que se dizia que ele não era o melhor novelista nem na casa dele. Aproveitou alguns de seus sucessos televisivos e andou passeando também pela literatura. Tomou posse da cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras, cujo ocupante hoje é Paulo Coelho. Morreu em São Paulo, vítima de um acidente automobilístico em 1999, durante a preparação da minissérie “Vargas”, baseada em uma de suas peças de teatro.
É sempre prazeroso lembrar os personagens desta novela. Na minha opinião, a ficção de Saramandaia era muito melhor que muita coisa que se propõe a ser real, hoje em dia.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Se os Tubarões Fossem Homens - Bertold Brecht

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres têm gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Inculcar-se-ia nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Padeiro - Rubem Braga


Agora percebi que ainda não havia postado nada neste mês, e como estou um tanto seco de palavras e  idéias, resolvi pegar emprestado uma crônica de Rubem Braga.
"Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:
— Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?
“Então você não é ninguém?”
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”
E assobiava pelas escadas."