Na era dos lobisomens, crepúsculos e luas novas, me lembrei de um folhetim brasileiro, apresentado por duas vezes na televisão, cujo enredo trazia personagens e estórias prá lá de esquisitas e sobrenaturais, tais como: um pacato cidadão que possuía asas; um coronel que soltava formigas pelo nariz; uma senhora que, de tanto comer, explodia; outro que ao se emocionar, ameaçava cuspir o coração; uma dama da noite que quando excitada, ficava em brasa, literalmente, queimando tudo em que encostava; e um professor que, se não bastasse virar lobisomem, há anos não dormia e em suas andanças noturnas, jurava ter ser encontrado com personagens históricos, como D. Pedro I e Tiradentes.
Embalada por trilhas marcantes como: “Pavão Mysteriozo” (assim mesmo, com y e z – era o tema de abertura), de Ednardo (?), “Canção da Meia-Noite”, dos Almôndegas (??), “Caso Você Case”, com Marília Barbosa (+?-) e ainda, “Sou Estopim”, interpretado por Sonia Braga (sim, e mandava bem) que também era uma das moças do cabaré (e mandava melhor ainda). Além destas, haviam também outras cobras da MPB, como: Geraldo Azevedo (“Malaksuma” e “Juritis Borboletas”), Ney Matogrosso (“Prá Não Morrer de Tristeza”), Alceu Valença (“Borboleta Sabiá”), Gilberto Gil (“Jeca Total”), Fafá de Belem (“Xamêgo”) e os Luizes Gonzagas, o pai (“Capim Novo”) e o filho (“Chão Pó Poeira”).Correndo o risco de revelar a idade, se você disse “Saramandaia”, já revelou. Mostrada a primeira vez em 1976 e a outra em 1983, ao redor de uma tema político – a troca do nome da cidade de Bole-Bole para Saramandaia – os atores iam revelando seus talentos, mostrando os personagens meio realistas meio fantásticos. Juca de Oliveira dava vida ao alado João Gibão. Antonio Fagundes estreava na Globo, interpretando Lua Viana, o prefeito, que era casado com Zélia, Yoná Magalhães. A musa Sônia Braga, era Marcina. Ary Fontoura era o lobisomem professor Aristóbulo. Castro Gonzaga era o coronel, nariz de formigueiro, Zico Rosado. Wilza Carla era a Dona Redonda, que explodiu de tão gorda. A inesquecível Dina Sfat, era Risoleta, dona da casa da luz vermelha, disposta a tudo para uma noite de amor com o lobisomem. Além destes, também fizeram parte do elenco: Milton Moraes, Sebastião Vasconcelos, Carlos Eduardo Dolabella (pai do dublê de badboy Dado Dolabella), Eloísa Mafalda, Natalia do Vale, Pedro Paulo Rangel, José Augusto Branco, Brandão Filho e muitos outros. Não esquecendo a participação especial de Tarcísio Meira, como D. Pedro I e Francisco Cuoco, como Tiradentes.

O autor Dias Gomes, era originalmente do teatro e teve várias peças censuradas no regime militar. Conta-se que foi demitido da Radio Nacional, por ser comunista. Começou na Globo após isso, e fez diversas novelas de sucesso, das quais destaco: O Bem Amado, de 1973. O Espigão, de É sempre prazeroso lembrar os personagens desta novela. Na minha opinião, a ficção de Saramandaia era muito melhor que muita coisa que se propõe a ser real, hoje em dia.


